domingo, 26 de junho de 2011

Pousando de leve.

Este coração se entrega, não sabe
                   a quem, vive sorrindo, cantando,
                             pousando no seu também.

Oh doçura da manhã ! Sol amornando
                   a face! Olhar misterioso se
                              encontrando! Não são vocês
                                      meu alimento?

Sim, e muito mais. Em cada canto
                   uma nova nuança, um toque macio,
                             uma suavidade chegando,
                   pousando de leve.

Me contemplar amando...

Tempo de viver um novo dia,
                   me descobrir sorrindo, me
                             contemplar amando.

Soltar todas as amarras,
                   me envolver no desconhecido,
                             saborear cada instante.

 Distraído deixo me levar,
                   me diluo no espaço de mim
                             mesmo.

Rio que corre sereno, na paz da manhã
                  que nasce para mim.

Flor de vida, campo espalhando
                   pétalas douradas, o sol desponta,
                             banha o vale imenso.

Eu aqui sobre a pedra, silente,
                   coração aberto à paisagem, bebendo o frescor
                            da manhã que aponta.

O coração cheio é a medida.

Sei o quanto a vida já me deu, o coração
          cheio é a medida.

Agradecido ri, uma lágrima dá partida,
          se perde no meio do caminho, os olhos
                   esperam, um profundo suspirar e
          tudo me chega, me preenche.

A sede não é tanta, o caminho é um prazeroso
          passeio, descanso
                   à sua margem sob o umbuzeiro.

Sombra me tendo, me contendo, cicatrizando as dores
          do caminhar apressado que ficou prá trás.

Árvore amiga.

As árvores me ensinaram muito,
          sempre que abri as portas ao
                   seu silêncio e me entreguei
          ao carinho de sua sombra.
Quantas vezes cansado fui ao seu
          encontro, me deitei, deixei que o
                   corpo em comunhão encontrasse
          o repouso, não conto.
Árvore amiga, você  um dia me recebeu
          exausto, depois de uma longa
                   caminhada, braços abertos,
                             folhagem densa.
Ainda bebi com as mãos em concha da
          água cristalina, pura, que corria
                   fresca, ali do lado do
          teu tronco.

Tens de sobra.

Sobrou um pouquinho aqui e ali.
Pernas torneadas, grossas, a
          pele macia dá o tom que o
                  sol tostou.
Corpo gordinho balançando no
          ritmo da caminhada, danças.
Cinturinha saliente expondo
          um pouquinho da fofura
                   que teu corpo mostra.
Face redonda, graciosa, aberta num
          sorriso que se entrega à manhã,
                   ao caminhante e à  vida que
          tu tens de sobra.

Nós não estamos preparados para a morte.

               Perdi minha irmã na melhor idade, aos cincöenta e nove anos. Ela não gostava de ir a médicos, portanto não fazia exames regulares de prevenção. Já numa fase bem adiantada da doença, quando as dores estavam beirando o limite do insuportável é que ela começou a procurar os recursos da medicina. Sentia dores na coluna, fez os exames recomendados pelo médico e começou a tomar remédios. Nenhuma melhora. Mudou de médico, mais exames, novas suspeitas levantadas, mais remédios, melhora passageira, recaídas insuportáveis. Só indo à capital, lá a medicina está mais adiantada, Foi um sofrimento a sua viagem. Ela não podia mexer a cabeça, qualquer movimento e a dor voltava. Foi de avião.
               Em Fortaleza minha irmã que é médica tomou todas as providências para que ela fosse atendida pelos melhores profissionais. Clínico geral inicialmente e depois os especialistas. Suspeita de câncer de mama. Diagnóstico confirmado, estágio cinco. Ela sofreu muito nas corridas para consultórios e laboratórios de análises. A dor apenas aliviada por remédios cada vez mais fortes.
               O médico chamou a mim e a minha irmã e nos disse que ela tinha no máximo três meses de vida. Foi um choque, ficamos abalados, escondemos dela o diagnóstico. Foi muito difícil disfarçar nosso estado emocional mas fizemos de tudo para lhe dar ânimo, esperança de cura. Aos poucos fomos dando conhecimento a toda família e aos amigos.
               O tratamento foi iniciado por aplicações diárias de radio terapia na região cervical para aliviar as dores do pescoço. Um sofrimento grande no percurso de automóvel da Aldeota para o Hospital do Câncer no bairro Rodolfo Teófilo. O carro bem devagar, quase parando, evitando qualquer trepidação. O pescoço protegido por um travesseiro e lençóis, o maior cuidado. Dez aplicações e pouca melhora em relação às dores. A doença avançando a passos largos. Ela queria viver. Repetidas vezes apertava minhas mãos e perguntava: - eu vou morrer? Como não tinha o que dizer, falava para que tivesse esperança em Deus. Era muito difícil lhe dar qualquer resposta, principalmente a que ela gostaria de ouvir. O tratamento radioterápico é muito traumatizante. Queimou sua garganta por dentro e por fora, lhe tirou o paladar e dificultou demais a ingestão de alimentos. A sobrevida que os médicos oferecem ao paciente neste estado é dolorosa, é um martírio.
               No dia do seu aniversário foi servido um almoço com pratos de sua preferência, queríamos que ela participasse, mas ela não provou nada. Ficou numa cadeira afastada da mesa e nós comemos um pouco, sem nenhuma satisfação. A comida não descia, não tinha sabor, uma tristeza só, difícil disfarçar. Foi assim o período de sobre vida da minha irmã, uma subvida para todos nós.
               Os assuntos das conversas tinham de ser interessantes procurando sempre lhe dar ânimo, vontade de vencer o sofrimento, aceitar também. Uma amiga veio algumas vezes lhe proporcionar momentos meditativos, com músicas suaves, ela gostava muito.
               Com todos os cuidados que tivemos para lhe dar um sobrevida o melhor possível, ela veio a falecer uns dois meses depois do diagnóstico, depois da primeira aplicação da quimioterapia.
              Oito anos depois de sua morte muitos pensamentos povoaram e ainda hoje martelam minha mente e eu não tenho respostas. Não teria sido melhor para ela e para nós que ela tivesse conhecido o seu diagnóstico? Ela não teria se preparado mais para a morte? Não teria feito recomendações para a família como proceder após seu falecimento? Resolver pendências, se despedir? Melhor a dúvida ou a certeza? Não sei e por não saber ainda hoje sofro com estas questões. O que você acha? Gostaria de compartilhar com os amigos estas minhas dúvidas, dê sua opinião.
               Estou trazendo este fato hoje porque no momento estou passando pela mesma situação. Uma pessoa muito querida está vivendo este drama, diagnóstico semelhante, promessas médicas de uma sobrevida com a quimioterapia. Vale a pena fazer? Quando o médico diz para deixar o paciente fazer o que quer, se satisfazer, sair do controle habitual é porque sua vida na terra está findando. E a despedida geralmente é muito difícil. Nós não estamos preparados para a morte.